terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sangue Nostro!


Cresci em uma família italiana que há mais de cem anos mora no Brasil.
Cresci vendo meu avô tomar vinho, como que quem toma porções líquidas de vida, todos os dias.
Cresci com um pé de uva no terraço da casa dele, algo extraordinário para uma casa no centro da cidade, e com a minha avó acentuando o “r” enquanto tornava os domingos um ritual de família em que a homenageada era a boa comida.
Cresci ouvindo Gianni Morandi, Nico Fidenco, Rita Pavone, Lucio Dalla e Laura Pausini na sala de casa. Dormindo em reuniões da instituição italiana da qual meu pai fazia parte, assistindo “RAI”, perdendo meus pais alguns meses para a Itália, recebendo um doce casal de “amici italiani” em casa e esperando pelo queijo parmesão que eles sempre traziam!
Vivenciei essas experiências de forma natural e espontânea, sem notar elas se enraizarem em mim.
Em setembro passado visitei a Itália pela primeira vez, fui recebida de braços e coração aberto por uma doce e amável família. Nessa oportunidade, vivendo o cotidiano italiano, eu entendi o significado daquelas raízes. Reconheci os meus. Mais que isso: eu os compreendi. E os vi em mim.
É bonito enxergar a força da tradição cultural, que não se rompe nem após cem anos de fluência do sangue fora do seu país de origem. É bonito se encontrar, se reconhecer e deixar-se acolher.
Não é só uma questão de sangue, talvez este seja o ponto minoritário. É uma questão de entender a sua construção e, daí, entender a dos outros!
A importância da preservação das tradições culturais está em contar para você a sua história. Permitir o autoconhecimento. Está em contar a sua história para o mundo. Solidificar todas as existências que o trouxeram aqui, onde a vida ainda flui. Possibilita olhar para si e enxergar o mundo todo. Daí, nasce a empatia que faz mais milagres que o moralmente e obrigacional respeito. E isso é mais que belo, é poético! Afinal, nenhum povo toca o mundo sozinho.
E, veja, eu nasci no Brasil cercada das tradições dos meus familiares italianos, com amigos de família alemã, portuguesa, espanhola, africana e indígena, também cercados cada qual com suas ricas tradições. Crescemos todos no mesmo solo e o Brasil continua o Brasil! Permanece com sua identidade própria. Apenas ganhou mais graça, histórias e diversidade. Continua uno, pleno, autônomo!
Que sorte a minha que a terra das palmeiras acolheu os meus imigrantes. Sou afortunada por dividir minhas raízes com aqueles que abraçaram-na (ainda que nas condições que sabemos que o foi).

Quem dera, hoje, todos tivessem a mesma sorte! Se o meu sangue atravessou o mar e continuou a fluir em outro continente, foi porque nos deixaram entrar.

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Meu avô em visita à casa em que seu pai morou antes de embarcar para o Brasil, em Brugine, Padova, Itália.

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