quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A terra dos impeachments


No hemisfério norte, David Cameron, cumprindo promessa política, ofereceu ao povo britânico o poder de escolher sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia. Declarou-se contra a segregação dos blocos. O povo votou pela saída. Cumprido o seu propósito frente ao parlamento britânico e por sua posição contrária à decisão em plebiscito, entendendo-se não competente para dar continuidade à gestão do cargo, saiu de cena e deu oportunidade para alguém mais competente, à regularização do novo cenário, entrar. Theresa May, também a favor da permanência do Reino Unido no bloco europeu, assumiu a liderança do parlamento, aceitando a decisão do povo e prometendo trabalhar para solucionar a separação da melhor forma possível.

No hemisfério sul, encerrou-se um longo processo estrelado pela oposição ao governo Dilma em que aquela finalmente saiu “vitoriosa”. Desde o seu início, o processo de impeachment presidencial já tinha resultado definido. O julgamento em si não tratou da apreciação de mérito, apenas formalidades para satisfazer o jogo político (esperamos, tolamente, que esse jogo não seja constituído por interesses pessoais dos jogadores). O foco nunca foi o bem da nação. Não se prezou a democracia. O objetivo era único: tirar o PT do poder para reabastecer a liderança do governo. Foi feito. Num estralar de dedos a oposição virou situação.

É certo que nenhum impeachment merece ser motivo de orgulho ou comemoração: é o contrário. Contudo, além das preocupações e pesares de praxe, este processo traz consigo as preocupações referentes à ausência de imposição do preenchimento dos requisitos do impeachment. Trocando em miúdos, o afastamento se deu exclusivamente por questões de interesse político. Veja-se bem: descartou-se a decisão do povo porque esta (a presidente democraticamente eleita) não tinha mais governabilidade, porque as alianças políticas, muitas vezes domadas por interesses pessoais, se moveram e tomaram outra forma.
Assim, um indivíduo ficha suja, que não poderia se tornar presidente de outra forma, tornou-se. A democracia brasileira, uma vez mais, levou um soco no estômago.

Talvez, por sofrer ao assistir as atrocidades decorrentes de uma política movida a interesses não nobres e que não se encaixam na essência democrática, assistir ao “Brexit”, ainda que discordando de seu resultado, gerou-me certo encantamento por essa citada particularidade da política britânica. Gostaria de assisti-la no Brasil: políticos que lutam para dar voz ao povo e, após ouvi-lo, fazer o melhor pela decisão democraticamente fixada.
Falta muito. Ainda usa-se Deus e família para motivar as decisões políticas nessas terras, reforçando a ideia sobre a visão política torta e egoísta que predomina no Congresso Nacional. Ainda acha-se que a solução é simples, basta tirar fulano do poder, é corrupto! Como se o cicrano não o fosse. Que se aprenda com o erro e ao menos se reflita sobre os males de confrontar a democracia em prol de uma solução simplista, certamente ineficaz. Quando a democracia é enfraquecida perde-se muito, de qualquer forma.

Até lá, continuamos utópicos, esperançosos, pensantes, falantes, críticos, sobretudo autocríticos, pois que não esqueçamos se tratar o parlamento democrático de um substrato do seu povo. Sabemos que sempre haverá insatisfeitos em uma sociedade, não se exige perfeição, mas que, minimamente, não se deixe faltar o básico e que a voz final seja sempre a da maioria.

Letícia Marcati, 06 de setembro de 2016.

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